sexta-feira, 17 de abril de 2020

Arte de baixo calão

Vou cuspindo palavras sobre o papel, sem nexo, sem rumo
Elas, que começaram embutidas de sentimento, perdem-se
Passam a significar porra nenhuma
Manchas escuras no delineado da caneta
Juro que a tinta estourou, até perceber que é merda
Merda escrita, textos bostejados pelo peito, falhas na boca e piores quando marcadas na folha
Nessa confusão que embaralha os pensamentos, nem escrever posso
Já não faz sentido, já não flui, e contento-me
Contento-me com essa de existência sôfrega e vazia, sem pensar, sem registrar
Largo a caneta, lágrimas nos olhos, gotas no papel
Olho: uma imensidão de manchas que te engolem em sentimentos
Puta que pariu! Que ironia
Sou uma artista do caralho.


03/2019

Facão

Quantas almas ceifei
E quantos corpos feri
Brandindo meu facão
Ao tentar trilhar minha felicidade?

Desbravando a mata densa
Dessa selva de pessoas
Esqueci que a lâmina afiada
Dilacerava os que me cercavam

Abri o caminho, com pesar
E ele não me entregou à alegria
Pensei que era, ao menos, prova
De que segui em frente e cresci

Ao olhar para trás, contudo
Encontrei dor e morte
O luto dos corações
Que meu facão assolou


04/2020

Castigo

Dentro de mim há outra eu
Eu capitão do mato
Que segue a açoitar
Minhas fragilidades

Enquanto anseio por um abraço
Sôfrega à espera de acolhimento
Esse punho de ferro me ataca
Castigando-me com minha própria mão

Ah, se eu não buscasse refúgio
Nesse invólucro de tristeza
E autoinfligida solidão


04/2020